Em 2002, o Brasil registrou o primeiro atentado violento a uma escola em Salvador, provocando a morte de duas estudantes de 15 anos por um colega de turma, que utilizou a arma de fogo pertencente ao seu pai adotivo. De lá para cá foram mais 21 ataques violentos, sendo 14 só nos últimos 3 anos.
O recente ataque a uma creche de Blumenau com o assassinato de quatro crianças e lesões graves em outras cinco, seguiu o padrão do atentado não menos repugnante e vil de 2021 contra uma creche na cidade de Saudades, SC, matando três crianças e duas professoras. O perfil dos autores desses massacres segue um padrão: são jovens brancos do sexo masculino.
Estudos apontam que o aumento desses ataques está ligado à banalização do discurso de ódio, ao isolamento virtual no período da Pandemia, ao crescimento de células neonazistas, tristemente identificadas em maior número em Santa Catarina, e à facilitação de acesso a conteúdos extremistas nas redes sociais.
Os conteúdos da subcultura do extremismo, como o tráfico de drogas, pornografia infantil e outras práticas ilegais e obscuras, antes limitado à chamada Deep Web, uma espécie de submundo invisível da Internet, hoje são compartilhados em redes sociais acessíveis a qualquer criança.
Vídeos sobre abusos de crianças, torturas, uso de armas de fogo, assassinatos e suicídios ao vivo podem ser acessados por crianças no Twitter e no Tik Tok. As mesmas redes sociais são utilizadas para compartilhar discursos de ódio e de intolerância de políticos eleitos com o apoio declarado do Movimento Pró-Armas, maior grupo armamentista do país. Em Santa Catarina, o movimento apoiou a eleição de vários parlamentares e até do governador, cujo gabinete no Senado era compartilhado com o presidente do Pró-Armas.
O fato é que os pais de crianças estão muito apreensivos, e com razão. Eles reivindicam ações imediatas de segurança nas escolas, em defesa de seus filhos e profissionais da educação, a exemplo da implantação de artefatos policiais armados.
Essas medidas podem até dar uma certa sensação de segurança, mas elas não são totalmente eficazes e costumam ser burladas pelos agressores. As escolas dos EUA, por exemplo, estão entre as mais vigiadas do mundo, mas isso não impediu 46 atentados somente em 2022.
Assim, para além dessas providências emergenciais, é urgente investir nos serviços de inteligência e monitoramento de plataformas e redes sociais para identificar perfis com conteúdo extremista. Para se ter uma ideia, apenas na operação Escola Segura do Ministério da Justiça foram identificadas 511 contas no Twitter com ameaças de ataques a escolas (Veja, 10.04.2022).
Diante desse ambiente de insegurança nas escolas, pergunta-se: o que fazer para garantir a segurança dos estudantes e profissionais de educação nas escolas? O tema é complexo e delicado e não se resolve com soluções simples. Estudos apontam a necessidade de políticas públicas com programas voltados à preparação de setores de apoio para identificar denúncias e ameaças de ataques; transformar a escola em ambiente de convivência saudável, participativa e dialógica; monitorar crianças e jovens que interagem com grupos de Internet que disseminam conteúdos violentos e obrigar as plataformas digitais a retirar conteúdos ilegais e violentos das redes sociais.